segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A prática da Dança do Ventre na 3ª Idade


  • O problema de muitas:

Viver gera experiências. Experiências geram marcas. Marcas ficam registradas, sejam elas boas ou ruins. Os registros destas marcas ficam arquivados na memória consciente e subconsciente, que, na tentativa de aliviar o sistema do indivíduo, os transfere para diversas partes do corpo. O corpo, armazenou estas informações em si, gerando couraças e respostas somáticas que se cristalizaram com o tempo na mulher.

A mulher. Ansiosa. Tensa. Inflexível. Rígida. Infeliz... Doente. 


A Dança Oriental como prática na terceira idade, que preferencialmente chamo de melhor idade, proporciona inúmeros benefícios que a mulher pode contar. A começar pelo conhecimento do próprio corpo, a consciência corporal, que geralmente é desprezada nesta fase, é aqui, tratada com prioridade.
As potencialidades sensoriais, sensitivas, perceptivas, cinestésicas, motoras, criativas e comunicativas são ampliadas. O reconhecimento da identidade, a sensação de acolhimento que a Dança do Ventre trabalha, diminui sintomas psicossomáticos, o medo da morte e o medo da solidão. Proporciona motivação, contato com experiências próprias desta fase da vida.
Por trabalhar a relação íntima entre movimento e emoção, desperta uma linguagem corporal espontânea. A prática da Dança do Ventre, também pode ter efeito ansiolítico e antidepressivo para a mulher.
Todos estes benefícios são possíveis, porque a Dança do Ventre aplicada para a melhor idade trabalha com recursos variados, tais como a música, o silencio, as vibrações produzidas pelo corpo, cores, palavras e imagens. Ela privilegia movimentos livres, espontâneos, próprios de cada praticante.
O processo-aula favorece a manifestação destes benefícios: o aquecimento pode ser passivo ou ativo, com exercícios primários básicos, como o contato com o chão, a exploração dos sentidos e do espaço, a percepção do movimento respiratório, a noção de eixo corporal.
A prática dos movimentos da dança pode acontecer em dupla, grupo ou individualmente, envolvendo a movimentação de acordo com o ritmo da música, ou ritmo interno da própria praticante. Ela tem a liberdade, de criar a partir disso, um padrão próprio de movimento, respeitando sua essência.
Na fase do relaxamento, a praticante tem a oportunidade de reconhecer seu controle sobre o tônus muscular e perceber a diminuição de sua atividade cerebral. Nesta etapa podem se manifestar danças espontâneas para depois, a aluna se deitar ou sentar, ouvindo uma música ou ainda seguindo um relaxamento dirigido.
Há também de se considerar as causas do porquê a fase do envelhecimento ser tão dolorosa para muitas pessoas, tais como estilo de vida, atitudes mentais que geram padrões de resposta afetiva, que por sua vez geram respostas somáticas, revelando uma espécie de reação em cadeia, onde os sistemas do corpo estão interligados.
A Dança do Ventre pode se constituir numa alternativa para diminuir ou cessar esta reação em cadeia, porque ela possibilita à mulher que a escolhe, uma decisão em reabilitar-se holisticamente.
No aspecto orgânico ela tem a oportunidade de melhorar o funcionamento e o desempenho de seu sistema respiratório, cardiovascular, endócrino e neuromotor. No aspecto psicológico ela começa a sentir-se útil para si, e, neste ponto, ela se revaloriza, aumenta sua auto-estima, se dá crédito, confia em si mesma e em suas capacidades, respeita seus limites, respeita-se como é, e reorganiza sua auto-imagem corporal.
A Dança do Ventre é principalmente vantajosa para a mulher da melhor idade. Pois ela já viveu as alegrias e mágoas que a vida lhe permitiu sentir, ela carrega consigo uma bagagem de conhecimentos que coloca a mulher jovem em desvantagem na dança. A mulher na melhor idade, tem experiências que a mulher jovem não possui, por isso mesmo, sua sensualidade, trabalhada e reconhecida na dança, é mais envolvente, magnética e pura – ela vive a Anciã.

Artigo retirado do livro "Metaforma e Movimento" 

domingo, 30 de outubro de 2011

A Origem dos Címbalos na Música Árabe


Vamos aqui tentar desvendar alguns dos  mistérios que envolve os Snujs, através de uma análise geral e histórica dos címbalos e sua importância no âmbito da música árabe.
O Sistro - Instrumento de percussão religiosos composto por 6 címbalos ( total de 12 pequenos pratos rústicos ) Acredita-se que os Snujs derivaram desse antigo instrumento ritualista egipcio.
Primeiramente, devemos procurar entender o que realmente significa um címbalo:
Segundo consta nos dicionários modernos, címbalo significa pratos. Desta maneira, o címbalo corresponde a cada um dos dois discos de metal sobrepostos.
Por exemplo: os Snujs são compostos por 4 pratos, que formam 2 címbalos (dois pratos em cada mão). O Daff ou Riqq, é um instrumento que possui 5 címbalos duplos, ou seja, 10 címbalos que totalizam 20 pequenos pratos.
Qual seria a importância dos címbalos na antiguidade egípcia? Comprovadamente, o som produzido por címbalos está diretamente relacionado ao sagrado, ao religioso. É o mesmo objetivo dos sinos das igrejas, ou seja, quando tocados, conduz as orações dos fiéis até ao mundo divino.
Estudiosos acreditam que, inicialmente, a música árabe seria destinada aos cultos e adorações em honra aos deuses egípcios.
Gravura egípcia que mostra um harpista sendo acompanhado por Sistros, tocados por sacerdotisas.
Bem, segundo dados históricos, o "Sistre" ou "Sistro" foi certamente o primeiro instrumento de percussão árabe dotado de címbalos que surgiu no Egito antigo. A prova esta estampada claramente em milhares de esculturas e pinturas de templos e tumbas faraônicos.
Os egípcios denominavam o Sistro de Sechechet, que podia possuir duas formas diversificadas.
Em algumas descobertas da Arqueologia, como a tumba do faraó Tutankhamon, foram encontrados diferentes Sistros, compostos por címbalos de bronze bastante rústicos.
O toque do Sistro, geralmente, estava relacionado ao ato de clamar por proteção divina, e sempre era tocado por mulheres (sacerdotisas). Abaixo saberemos o porque desta razão.
No âmbito da religiosidade, o som produzido pelos címbalos representava o clamor de bênçãos à deusa Hathor (Deusa da Beleza, da Música, das Danças e, também, da Fertilidade).


  • Címbalo datado do período romano - Museu Britânico

Conforme nos explica os egiptólogos, Hathor, tendo sobre sua cabeça uma lua cercada por chifres, representaria o princípio feminino (beleza) e a fertilidade.
Aqui podemos entender historicamente um dos motivos pelo qual os Címbalos são considerados  um acessório indispensável à Dança do Ventre. Lembramos, aqui, que a Dança do Ventre está ligada ao princípio da fertilidade da mulher. A Dança exalta o privilégio de ser mulher e sua dádiva de procriar, como bem nos ensina Shahrazad Sharkey.
O Sistro ainda é usado na música árabe ? Não ! Na música árabe moderna sua utilização fora abolida, porém, em países como a Etiópia, sua utilização ainda é possível em rituais e cerimônias estritamente religiosos.


  • Pandeiros com címbalos.

Acreditamos que a primeira geração de "pandeiros" que apareceram no Egito não possuíam címbalos. Certamente o Daff ( Riqq para os Egípcios) e o Bendir com címbalos (Mazhar), são desdobramentos que surgiram posteriormente, o que evidentemente representa um aprimoramento dos instrumentos de percussão.
Relêvo egípcio que mostra uma mulher tocando um Bendir ou Daff (sem címbalos). O Instrumento, conforme mostra a gravura, é empunhado pela mão esquerda e tocado com a mão direta (forma tradicional como são tocados os pandeiros árabes até hoje).
Se observarmos atentamente algumas gravuras egípcias, vamos notar claramente a predominância de pandeiros sem címbalos, o que reforça tal idéia supracitada.
O surgimento histórico dos pandeiros com címbalos tanto no Egito quanto em todo o mundo árabe, deve-se certamente a outras duas finalidades de sua utilização, ou seja, demonstração de alegria e ostentação rímica.
Ressaltamos que a utilização dos Snujs por uma Bailarina durante sua apresentação significa auto-afirmação de seu estado alegre e o convite à elevação de espírito (caráter não religioso), como também o pedido de proteção divina, intrinsecamente ligado à preservação de sua faculdade de procriar (fertilidade).


  • Os Snujs e sua utilização no Brasil.


Os Snujs (címbalos para os dedos) foram imortalizados no Brasil pelas mãos da notável Shahrazad Sharkey, durante suas apresentações de Dança.
Acompanhando a percussão de Fuad Haidamus, pioneiro da percussão árabe, Shahrazad trouxe a verdadeira técnica de sua utilização, figurando até hoje como a grande mestra no toque desse instrumento no Brasil e de sua utilização na Dança do Ventre.
Posteriormente, sua técnica passara a ser copiada e utilizada pela primeira geração de bailarinas que se seguiu, todas importantes precursoras na difusão da arte trazida por Shahrazad ao território brasileiro.

Vitor Abud Hiar 

A Dança do Ventre e a Idade


Há também de se considerar as causas do por que a fase do envelhecimento ser tão dolorosa para muitas pessoas, tais como estilo de vida, atitudes mentais que geram padrões de resposta afetiva, que por sua vez geram respostas somáticas, revelando uma espécie de reação em cadeia, onde os sistemas do corpo estão interligados.
A dança do ventre pode se constituir numa alternativa para diminuir ou cessar esta reação em cadeia, porque ela possibilita à mulher que a escolhe, uma decisão em reabilitar-se holisticamente.

  • No aspecto orgânico ela tem a oportunidade de melhorar o funcionamento e o desempenho de seu sistema respiratório, cardiovascular, endócrino e neuromotor.
  •  No aspecto psicológico ela começa a sentir-se útil para si, e, neste ponto, ela se revaloriza, aumenta sua auto-estima, se dá crédito, confia em si mesma e em suas capacidades, respeita seus limites, respeita-se como é, e reorganiza sua auto-imagem corporal.

A dança do ventre é principalmente vantajosa para a mulher da melhor idade. Pois ela já viveu as alegrias e mágoas que a vida lhe permitiu sentir, ela carrega consigo uma bagagem de conhecimentos que coloca a mulher jovem em desvantagem na dança.
A mulher na melhor idade, tem experiências que a mulher jovem não possui, por isso mesmo, sua sensualidade, trabalhada e reconhecida na dança, é mais envolvente, magnética e pura – ela vive a Anciã.

A Dança do Ventre como Dança Artística


A Dança do Ventre geralmente é vista no Brasil como uma dança cuja finalidade é a sedução. A bailarina dança para seduzir os homens e estes se divertem e admiram a beleza sensual de quem dança. Ela também costuma ser vista como uma dança que não necessita de técnicas e tampouco de qualquer conhecimento a quem quer realizá-la. Diz-se por aí que é necessário apenas um “rebolado” e muita sensualidade.
Mas ao contrário do que se imagina, atualmente no ocidente a dança do ventre pode ser considerada como dança artística, assim como o balé clássico, a dança moderna e o jazz o são.
Para a professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Mônica Dantas, a dança artística é aquela dança que envolve um espetáculo apresentado a uma platéia, que possui técnicas específicas de movimento, assim como criadores das obras de dança (os coreógrafos) e a profissionalização dos bailarinos. Neste sentido, a dança artística caracteriza-se como uma profissão.
Dança artística significa então, a dança que necessita de treinos, técnicas, ensaios, aulas, etc. Ou seja, aquela que requer um processo formal de aprendizagem, e, portanto, necessita de profissionais habilitados para o seu ensino e apresentação.
As platéias para as apresentações de dança do ventre encontram-se geralmente em restaurantes árabes, casas de chá, festas comemorativas como aniversários e casamentos, assim como festivais de dança em teatros.
Existem inúmeros movimentos desta dança, que são realizados tanto em deslocamento quanto posicionada; realizados tanto com o tronco como com o quadril – sendo que o princípio da dança do ventre é o isolamento das partes do corpo: quando se move o quadril, imobiliza-se o tronco e vice-versa. Os braços participam sempre como uma moldura para a dança. Para cada um desses passos existe uma técnica específica a ser aprendida, a qual possibilita a realização do mesmo.
Os movimentos são feitos sempre junto com uma música árabe. Não são todas as músicas árabes que se prestam à dança do ventre, assim é necessário que a bailarina saiba quais são adequadas para sua dança. Também há muitos ritmos árabes e, quem dança, precisa conhecer e dominar um número mínimo deles para que possa executar uma dança adequada a cada um deles (pois há danças folclóricas árabes que se utilizam de algum objeto, como por exemplo, a dança com a bengala, em que se dança somente com determinados ritmos e não outros).
As apresentações podem ser em grupos, em solos, duplas ou trios. Também as danças podem ter sido coreografadas previamente – pela própria bailarina que dança ou por outra-, ou podem estar sendo improvisadas por quem dança no instante de sua realização.
As profissionais da dança do ventre são professoras e bailarinas ou tão somente uma das duas. Entendendo-se que bailarina é aquela que realiza apresentações em público em troca de cachês. Mas o que se verifica é que a maioria das profissionais exerce ambas as funções.
A formação profissional em dança do ventre é um assunto pouquíssimo discutido e que apresenta ainda características e situações bastante informais.

  •     Não há um órgão fiscalizador que regulamente esta profissão. A maioria das bailarinas e professoras, depois de um determinado tempo fazendo aulas com outras professoras, consideram-se profissionais e dão início à sua carreira. Este preparo anterior à profissionalização varia muito de uma pessoa pra outra.
    Assim, pode haver professoras que se iniciaram depois de sete anos fazendo aulas, assim como aquelas que, passados dois anos como alunas já ministravam aulas e realizavam shows em troca de cachês.
Conclusões:
Seja para dançar a coreografia elaborada por outrem, seja para coreografar músicas ou improvisar danças, a praticante de dança do ventre necessita de muitos conhecimentos prévios, que incluem a aprendizagem de como se apresentar, das técnicas específicas da dança do ventre, de como coreografar e improvisar, conhecimentos da música e dos ritmos árabes, entre outros. Inegavelmente esses conhecimentos se adquirem através de aulas, treinos, estudos, ensaios, ou seja, através de um processo formal de aprendizagem da dança.
Assim, não cabe mais à dança do ventre o papel de uma prática corporal cujo objetivo é a sedução, e à qual não há necessidade de quaisquer conhecimentos. Ela possui conhecimentos e técnicas específicas, disponíveis e acessíveis no mercado, e, além disso, necessárias a quem quer praticá-la.
Ainda que sua profissionalização no Brasil se dê de maneira informal e que seja pouco discutida, ela caminha a passos lentos uma vez que ainda limita-se a poucos profissionais com formação específica e que são comprometidos com a qualidade da cultura corporal da dança do ventre. Profissionais que se preocupam com um preparo anterior à sua profissionalização, que sabem da necessidade de constante evolução, atualização e desenvolvimento de seus conhecimentos, que afastam desta dança características meramente sensuais, e que, portanto, garantem a qualidade da dança do ventre enquanto ensino e arte.

Referências Bibliográficas:
DANTAS, Mônica Fagundes. Toda mudança desse dia... uma dança. Uma abordagem histórica da dança artística. Coletânea do II Encontro Nacional de História do Esporte, Lazer e Educação Física. Ponta Grossa, 1994.
DANTAS, Mônica Fagundes. Poéticas da Dança Moderna em Porto Alegre: Histórias inscritas nos corpos que dançam. Coletânea do V Encontro de História do Esporte, Lazer e Educação Física. Maceió, 1997.


Por Mariana Lolato

A Baladi e seu significado especial


Dizemos sempre que o "DUM"  é o coração do ritmo. Quando aquele se torna imperceptível, este perde sua vida, sua característica. Mas afinal o que significa a expressão "DUM"?
"DUM" é a nota mais grave do ritmo e a mais vibrante. É uma nota que precisa obrigatoriamente estar bem perceptível (não ser confundida com as outras notas) e clara (não estar sob efeito de eco ou excessiva reverberação acústica).
Dentre as inúmeras características importantes da nota do "DUM", podemos mencionar três:
  1. Auxiliar no reconhecimento do ritmo propriamente dito.
  2. Auxiliar no reconhecimento de seu compasso.
  3. Identificação do ritmo representado graficamente.
Uma pergunta que certamente mais aflige as Bailarinas seria qual o elemento primordial que identifica e diferencia "em caráter exclusivo" o tradicional ritmo Maqsoun do ritmo da Baladi.
Existem muitas respostas para tal questão, mas se fizermos uma analise mais minuciosa, veremos que a grande maioria não são por completo elucidativas. Vejamos algumas respostas:
  • Baladi possui 2 DUMs na sua frase, enquanto que o Maqsoun possui sempre 1 DUM.
Essa regrinha vale mais para sua forma anotada (gráfica) do que para sua forma tocada, executada (que é a melhor forma de se estudar o ritmo).
O "DUM" a mais inserido no corpo do ritmo da Baladi tem um caráter predominantemente simbólico, que vem representar a forma recomendada para seu andamento. O DUM duplo força-nos a executá-lo de maneira mais lenta,vagarosa, para assim atingirmos o resultado final, que é o de tornar sua execução mais  interpretativa, convidativa e sentimentalista.
Ao  contrário do que se costuma ensinar,  o Maqsoun quando tocado, ou seja, durante sua execução, não há obrigatoriedade  de sempre apresentar 1 DUM na sua forma estrutural.  O Maqsoun pode apresentar tanto 1 DUM quanto 2 DUMs ( a exemplo, vide obra discográfica "Ritmos do Nilo" do percussionista Hossam Ramzy).
Não funciona portanto ficarmos atentos ao ritmo tentando descobrir se ele possui um ou dois DUMs para, então, identificarmos se é Baladi ou Maqsoun. Essa prática pode nos induzir a erro.

  • Baladi é a versão mais lenta do Maqsoun.

Trata-se de um raciocínio eficaz mas simples. No manual "Curso Prático de Tabla Árabe", adotamos tal raciocínio porque não tínhamos a intenção de nos aprofundar um pouco mais no referido tema; é claro que há mais para se acrescentar.
Devido a alguns fatores que veremos mais adiante, recomenda-se que todo Baladi seja executado sob uma marcha mais suave, pois, se tocado de forma mais rápida,"pode" acabar tomando a forma do Maqsoun.
Relembramos que regra dos DUMs impera como uma constante somente na forma anotada ou cifrada. Se desejamos descrever em uma folha de papel o ritmo Maqsoun, por exemplo, devemos colocar um DUM apenas na sua forma estrutural. Já se a intenção for de descrever o Baladi, os dois DUMs devem estar presentes. Os dois DUMs só são característicos no Baladi na sua forma anotada ou cifrada e não "na forma executada, tocada".
Ritmo de Baladi, compasso 4/4   =      D
D TkT D TKT TK...
É muito comum certos percussionistas, ao executarem determinada  Baladi, apresentarem na primeira frase rítmica dois DUMs e na segunda 1 DUM. Há também outros trabalhos que mostram o ritmo Maqsoun com dois DUMs na sua forma estrutural ou, então, o ritmo Baladi sob um andamento mais rápido. Ora, será que isso pode ser caracterizado como um erro ou descuido do músico ? É claro que não!
O que entendemos por "Baladi" ou "El Balad"?
Para realmente compreendermos o que é uma Baladi e o que é o Maqsoun, devemos ir um pouco mais além de tudo o que fora aludido até agora. Há muitos textos confusos na internet que tentam explicar o significado da palavra "Baladi".  Vamos agora tentar descobrir o que realmente significa a "alma da Baladi".
Quando perguntávamos aos nossos avós qual o significado dessa expressão,tínhamos sempre a seguinte resposta: "Baladi é a canção que fala do lugar onde nascemos e da vida simples que tínhamos ali. ". Cabe aqui recordarmos também das cantigas infantis libanesas semelhantes a muitas outras conhecidas no Brasil como, por exemplo, " Ciranda cirandinha" ou "Atirei o pau no gato", que sempre possuíam em suas composições a palavra "Baladi".
Exemplo de homem de baladi: Simples, vivendo o cotidiano da cidade do Cairo ou de Beirute. É o homem da cidade ou da vila.
Baladi é a terra, o lugar onde nascemos. Também, na visão do libanês, é a lembrança e o orgulho que temos por nossa terra natal. Mas não é a lembrança e o amor pela nação inteira como, por exemplo, o Líbano todo; é o amor pela aldeia, pela região, pela cidade, pelo lugar específico onde nascemos e crescemos.  É a saudade de nossa casa natal e  o desejo de lá um dia poder voltar. Baladi é a nossa terra natal mais o orgulho que temos desse lugar. É também tudo aquilo que está diretamente ligado ao lugar do qual originamos, às nossas raízes mais comuns.
Muitos já devem ter visto em antigos vídeos, a grande cantora libanesa Fairuz se apresentar em trajes de uma jovem camponesa cantando sua vida inocente e seus desejos simples. Ela está representando  uma "mulher de Baladi".
O Homem de Baladi sempre se veste com roupas simples, do cotidiano; veste a roupa normal do dia-a-dia.
É importante observar que a expressão Baladi está bastante relacionada com aquilo que é simples, básico e comum.
Sabemos que o Maqsoun é o principal ritmo árabe. Desse ritmo se extraiu o ritmo de Baladi, ou seja, o ritmo simples tocado na nossa terra natal.
Ritmo de Baladi = Ritmo da nossa terra natal
Notemos que o ritmo da Baladi exige maior interpretação ,mas, sem muitos floreados. As nuances sonoras são mais suaves e convidativas à recordação. É um ritmo simples, que representa a terra natal do árabe.
Maqsoun é muito tradicional em casas de espetáculos e shows. As Bailarinas ou Dançarinas da Belly Dance, sempre se apresentam com roupas suntuosas, de grande luxo e brilho. As apresentações em coreografia também são bastante comuns.
Seria ainda correto afirmarmos que o ritmo de Baladi é a versão folclórica do Maqsoun ? De certa forma sim, pois  trata-se de um ritmo que se ramificou do Maqsoun e recaiu sobre um sentimento regional (folclórico).
A própria expressão "Ritmo Baladi" já nos passa a idéia de ritmo regional, mas, se observarmos mais de perto, vamos descobrir que, no caso em questão, o folclore possui um campo bem mais abrangente. Baladi representa algo mais enxuto.
Ressaltamos ainda que a Baladi também faz parte da grande divisão de versões da música árabe, vejamos:
  • Música Árabe Moderna = É a música feita com elementos novos, modernos; que foge do clássico habitual.
  • Musica Árabe Clássica = É a música feita aos moldes tradicionais, habituais ( exemplo: As canções de Abdel Halim Hafez ).
  • Música Árabe Folclórica = São as canções que nasceram do meio do povo. Representam a sabedoria popular ( o Dabke, por exemplo, é uma dança árabe folclórica muito tradicional no Líbano)
  • Música de Baladi = É a música tocada ou cantada na região, na aldeia, no vilarejo onde nascemos e crescemos. É a música que faz relembrar nossas origens, nossas raízes.
Divisão da música árabe - Versões
  • Música Árabe Moderna
  • Música Árabe Clássica
  • Música Árabe Folclórica
  • Música de Baladi
  • Baladi Folclórico
Ratificamos uma vez mais a importância de se saber  identificar corretamente o que é clássico  e o que é moderno ; o que é folclórico e o que é baladi (distinção feita por muitos músicos árabes). O Maqsoun e o tradicional Fallahi são os ritmos mais usados para a Dança do Ventre no mundo inteiro. Assim, nesses específicos casos, o que pode parecer ser uma Baladi, tratar-se-á certamente do tradicional Maqsoun.

Vitor Abud Hiar 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Sobre concursos e afins...


Bem meninas, é do conhecimento de todas vocês que já participei de muitos concursos e incentivo minhas alunas a participarem. Mas, dentro do meio de dança do ventre este é um tema muito polêmico, que gostaria de dividir com vocês algumas coisas que acredito que são importantes para a escolha de vocês: participar ou não de concursos?

Por que a polêmica?

Muitas pessoas dizem que participar de concursos é incentivar a rivalidade entre grupos e inflar egos, colocando aqueles que ganham “acima” dos outros, como se sua arte fosse melhor.
Eu já vi muita coisa em concursos, inclusive, coisas que poderiam me fazer desistir de participar, como, por exemplo:

• Torcidas adversárias virando de costas para o palco ou fazendo pouco dos concorrentes que estavam se apresentando;
• Mães culpando a organização do evento, dizendo que o concurso era “comprado” só porque a sua filha não ganhou;
• Professoras histéricas porque o seu grupo não tinha sido o melhor e as alunas, chorando, pois tinham “decepcionado” a professora;
• Pessoas que até então participavam de tudo e, “de uma hora para outra” começaram a desdenhar de tudo aquilo, geralmente, depois de terem perdido algum concurso.

Pois é, tudo isso passa bem longe do glamour que esperam da Dança do Ventre, não é? Tendo isso em mente, podemos passar para o próximo ponto...

Por que participar de concursos?
Acredito que os concursos são um meio de divulgação do trabalho, de tornar conhecida no meio da dança, conhecer pessoas interessantes, outras nem tanto...
Mas, o principal, é que o concurso começa em sua preparação, com a escolha da música, da roupa, a elaboração de uma coreografia, os ensaios, o frio na barriga... Esse processo nos faz crescer como artistas, a criar metodologias, encarar a realidade da disciplina...
No dia do concurso, é o resultado desse processo, e acreditem ou não, se você vai ganhar ou não, isso é um detalhe, o que importa é a sua superação pessoal, ou seja, a cada concurso que você participa, receber notas melhores, encarar desafios cada vez maiores, coreografias mais difíceis, eventos mais concorridos, etc.
Claro que, neste caminho, tive avaliações ótimas, outras, nem tanto. Mas, recomendo que, verifique, quando pegar suas notas, o que te serve ou não; quais profissionais te avaliaram de forma séria e respeitosa e até conversar com ele depois, numa boa, com o intuito de aprender e crescer.
Eu participo de concursos há muito tempo. Tenho a experiência da vitória (Mercado Persa, categoria duplas, 2004) e não teve “marmelada”, nós merecemos, pois ensaiamos muito (9 horas por semana) e no momento da apresentação deu tudo certo, saiu como planejado. E também tive a experiência de ir para a final do mesmo concurso em 2006, na categoria profissional e não ganhar, e sei que também não teve “marmelada”, pois sabia que poderia ter ensaiado mais, ficado menos nervosa, etc.
Já peguei segundo lugar, terceiro, em outros, nem deveria ter saído de casa naquele dia... enfim... e estou aqui, contando história pra vocês, conseguindo passar um pouco da minha experiência pra vocês. Vale a pena participar. Pelo menos para mim. Tive alunas que não tiveram maturidade para aguentar a dor de perder um concurso. É uma pena, pois essas alunas fecharam um ciclo de possibilidades de auto-conhecimento, estudo e experiências.
Se o intuito for esse, vale a pena participar de concursos. E aí, vai encarar?
Rhazi Manat

domingo, 4 de setembro de 2011

Anatomia e Cinesiologia aplicadas à Dança do Ventre




Anatomia e Cinesiologia aplicadas à Dança do Ventre

Kinein. Do grego, mover. 
Logos. Do grego, discurso sobre um conhecimento. Cinesiologia é o estudo do movimento, de suas implicações e estruturas. 
"Tornar o impossível possível, o possível fácil, o fácil elegante e esteticamente satisfatório". 
Moshe Feldenkrais 

As estruturas coluna, quadril e pé são muito importantes na prática da dança, sem comentar as outras como a cintura escapular, as articulações dos pulsos, das mãos e dos dedos, largamente utilizados em movimentos de ondulações diversas. 
Na dança, o andar é aplicado de forma contrária ao do ciclo da marcha, em que o calcanhar contata a superfície do chão e em seguida, o apoio é transferido para o metatarso. O andar na meia ponta alta proporciona um ar de elegância, principalmente se o apoio é realizado do metatarso para o calcâneo, quando se utiliza o pé inteiro no chão.

É igualmente necessário compreender como ocorre o processo cinesiológico do corpo ao dançar. Não pensamos em como funciona nossa movimentação quando estudamos o corpo na dança. É preciso notar a movimentação pélvica na dança, e o impacto que esta causa na coluna.

Na marcha natural, existe um movimento sutil onde uma ligeira rotação pélvica diminui a ondulação vertical, na qual a pelve oscila sobre o eixo da coluna lombar. Quer dizer que, durante o passo, o grau de compensação da pelve diminui o ângulo, entre a pelve e a coxa, e a perna e o solo. Isso significa que ocorre uma inclinação pélvica, um leve balanço. Podemos dizer que a perna de apoio sofre uma adução, e, que a perna em movimento, uma adução muito leve, estando fletida no quadril e joelho, para se erguer da superfície e iniciar um novo ciclo.

Na Dança do Ventre, isto ocorre de forma mais intensa, solta, e, ou, forte, em relação aos eixos do corpo. O shimmy na articulação do quadril ocasiona uma oscilação muito maior sobre o eixo da coluna lombar em que a pelve se movimenta. A inclinação pélvica é ainda maior no caso do Shimmy Soheir Zaki, e também temos uma adução considerável da perna de apoio.

A flexão do joelho durante a fase de apoio é imprescindível na marcha comum. Muito mais na Dança do Ventre. Na marcha comum, o joelho se estende quando o calcanhar toca o solo, iniciando a fase de apoio para a perna, e o corpo se desloca sobre o seu centro de gravidade com o joelho fletido, passando sobre o pé e o joelho, gradualmente, estendendo-se novamente, até uma nova extensão no fim da fase de apoio. A flexão aqui não é uma flexão grande.Trata-se apenas do relaxamento da articulação.

Na Dança do Ventre o deslocamento ocorre de forma contrária. Parte-se com o joelho levemente estendido com o metatarso tocando o solo, deslocando o corpo sobre o centro de gravidade, relaxando o joelho, quando o pé inteiro toca o solo.

É muito importante notar que se a conjugação de movimento entre joelho e tornozelo, relaciona-se com a ondulação da pelve na marcha normal, na Dança do Ventre isso acontece de forma mais visível. Na marcha comum, durante o apoio do metatarso, o tornozelo realiza uma planiflexão e gradualmente flete, em sentido plantar, para se estabilizar no chão enquanto o corpo se aproxima do centro de gravidade e o quadril tem tempo para se estabilizar novamente. Como na dança aplicamos o andar inverso, ou seja, da ponta para o calcanhar, obtemos maior leveza e uma diminuição de peso considerável para que a pelve ondule livremente numa amplitude maior.

A atividade muscular possui, então, um papel de grande importância para a realização do deslocamento, pois trabalham juntos, os músculos da coluna, quadril, abdome e perna.

É importante a conscientização de que tipos de movimentos e posturas do membro inferior afetam pelve e coluna. Podemos observar concretamente que todos os músculos, mesmo as cadeias musculares mais distantes deste ponto, são solidários, auxiliam uns aos outros, para a realização de uma marcha.

Uma outra coisa extremamente importante é a influência do estado psico-emocional no comportamento da estrutura.

Fazendo notar, que o estado psico-emocional de uma pessoa pode alterar a maneira como ela anda e utiliza o próprio corpo, podemos citar Feldenkrais, que disse certa vez "A única coisa que você pode mudar é a maneira como você faz o que você faz". Isso nos leva a pensar que a musculatura funciona através do hábito. A cada repetição de um movimento, o corpo se organiza e vai assumindo uma configuração específica que vai se confirmando no tempo.

Uma má mecânica da unidade pélvica na prática do shimmy, por exemplo, devido a uma prática inadequada ou excessiva, e o emprego contínuo e exagerado de forças, provoca desequilíbrios e sobrecargas anormais, gerando dor no quadril, joelho ou coluna.

Desenvolvem-se síndromes e patologias em função do uso excessivo, das sobrecargas nas articulações, e a pessoa começa a sofrer restrições nos movimentos, fraquezas musculares e dores, que prejudicam o equilíbrio e o controle postural na dança. 
DISCO HERNIADO QUE CAUSA PRESSÃO NUMA RAIZ NERVOSA VÉRTEBRA

Dentre as patologias que podem ser desenvolvidas estão a bursite, a lombalgia e a tendinite, que provocam dor, que pode ser sentida na parte lateral do quadril, podendo descer lateralmente pela coxa, indo até o joelho, ou ainda pode ser sentida na virilha, ou ainda ao redor da região dos ísquios ou lombar; e o desconforto pode ser sentido após um longo período, ao ficar de pé, assimetricamente com o quadril afetado elevado e aduzido, com a pelve caída sobre o lado oposto, ou ainda com a realização de flexões de quadril ou na posição sentada, e também durante a realização de um exercício que provoque extensão excessiva enquanto a musculatura estava se contraindo: e a execução de shimmies mal compreendidos, deslocamentos mal estruturados, ondulações da coluna que exijam um preparo que não foi respeitado ou desenvolvido, podem, infelizmente, levar ao desenvolvimento destas patologias.

Compreendamos que um ato mecânico, aparentemente simples, pode ser tão complexo, que envolve articulações, músculos, centro de gravidade, equilíbrio, sistema nervoso central e periférico, vida psicológica e emocional. Lembremos também que a postura está intimamente ligada à auto estima.

Vamos terminar este artigo com Moshe Feldenkrais, que expressou uma idéia muito aplicável a respeito do que é possível e impossível fazer: "Tornar o impossível possível, o possível fácil, o fácil elegante e esteticamente satisfatório". 


“Atenta à como faço, posso descobrir como eu manipulo os meus ossos e os meus músculos no espaço, para onde eu direciono as diferentes partes do meu corpo durante uma ação”. (...)

"Quando penso num movimento que me parece impossível de ser realizado, na verdade o que me falta é imagem corporal prá este movimento. Me falta repertório para executá-lo, ou não consigo perceber como posso me organizar para que o movimento se torne possível. 
Explorar todas as possibilidades, decidir que partes do meu corpo devem ser ativadas, quais devem ser inibidas. Prá onde devo direcionar cada parte, errar, acertar, repetir, ir clareando o percurso do movimento. Até que a ação seja construída. Mas o movimento ainda é difícil, confuso, sem a qualidade dos movimentos cotidianos. Então eu coordeno a respiração, garanto a ausência de esforço, vou me sentindo bem e satisfeita com a qualidade da ação que descrevo. Posso então lapidar ainda mais, descobrir como suavizar mais, como fazer este movimento com uma qualidade que me encha de prazer. E sentir que me aproprio da minha ação".